‖ ‖ ‖ Carolina Ito ‖ ‖ ‖
Em 16 de setembro, a Polícia Militar cumpriu mandado de reintegração de posse de um prédio ocupado por integrantes do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) na avenida São João, centro da cidade de São Paulo. No prédio funcionava o Hotel Aquarius, que, segundo a Frente de Luta por Moradia (FLM), está abandonado há 10 anos. Cerca de 200 famílias haviam ocupado o local seis meses antes.
A ação da polícia resultou em um confronto que se estendeu por 12 horas, marcado por protestos, depredações de veículos e lojas e bombas de gás. Os principais jornais e portais de notícias realizaram a cobertura do acontecimento.
No artigo “Ocupar, reivindicar, participar: sobre o repertório de ação do movimento de moradia de São Paulo”, os pesquisadores Luciana Tatagiba, Stella Paterniani e Thiago Trindade voltam-se para a história do MTST e sua articulação na luta pelo direito à moradia digna. Também destacam que, de acordo com dados do Censo 2010 e da Secretaria Municipal de Habitação, existem quase 300 mil imóveis desocupados na cidade de São Paulo e cerca de 130 mil famílias sem ter onde morar.
Os autores apontam as principais estratégias do movimento, que podem oferecer uma visão geral de como se estruturam e se fundamentam suas ações: “1) a ocupação de prédios e terrenos públicos; 2) a participação em espaços institucionais; 3) a luta por moradia no centro e 4) a construção por mutirão autogestionário”.
A partir de tais estratégias, o MTST se tornou o componente central na disputa entre o direito à moradia e afirmação da propriedade privada, com grande capacidade de pressão e articulação em espaços institucionais.
Nesta proposta de análise de enquadramento, foram escolhidas reportagens publicadas no mesmo dia em que ocorreu a reintegração de posse na avenida São João. O conteúdo foi retirado dos sites da Folha de São Paulo e do Estadão.
Análise da reportagem da Folha
A reportagem “Confronto em despejo espalha pânico e saques nas ruas do centro de São Paulo”, assinada por César Rosati e Giovanna Baloghi, apresenta a reintegração de posse como “despejo de famílias sem-teto de um prédio da Av. São João”, que teria causado pânico e depredação.
A maior parte do texto é dedicada a descrever os confrontos que ocorreram entre sem-tetos, pessoas não identificadas que aderiram à manifestação e os policiais, com citação de apenas duas fontes, um policial militar e a Frente de Luta Por Moradia (sem identificação de seu representante).
Isso sugere que foi privilegiado um enquadramento episódico na elaboração da reportagem, uma vez que não explora quais interesses estavam em jogo no processo de reintegração de posse e as consequências da ação para os envolvidos – no caso, as consequências mencionadas estavam relacionadas aos prejuízos para os lojistas que tiveram seus estabelecimentos depredados e aos usuários do trânsito naquele momento.
O enquadramento de conflito também é enfatizado, ao colocar a PM de um lado e os sem-teto do outro, como se eles fossem, realmente, os protagonistas do acontecimento. Em nenhum momento se questiona o posicionamento do proprietário do prédio ou de algum órgão do governo sobre a retirada das famílias.
O fim da reportagem traz uma situação contraditória, pois, teriam sido feitas “reuniões entre a Polícia Militar, advogados da empresa proprietária e moradores, para acertar como seria a saída”. Assim, o encerramento do texto não deixa claro o porquê do confronto, considerando que estava tudo previamente combinado.
Análise da reportagem do Estadão
Na reportagem “Sem-teto e PM entram em confronto durante reintegração no centro”, sem assinatura do repórter, também são enfatizados os enquadramentos episódico e de conflito, explorando a descrição do que ocorreu nos arredores do prédio ocupado.
No texto, busca-se destacar a participação de black blocks, vândalos, usuários de drogas, adolescentes, moradores de rua, skatistas e até mesmo integrantes da torcida uniformizada Independente, que aderiram aos protestos.
O único parágrafo que contextualiza a ação da FLM menciona que “a entidade comanda 13 das 60 ocupações” no centro de São Paulo, entretanto, não cita o depoimento de nenhuma fonte que explique as reivindicações do movimento. A discussão, assim como na reportagem da Folha, é a batalha “civis versus PMs”.
Conclusões
As reportagens não apresentam argumentos de integrantes do movimento de moradia em favor das ocupações e não há preocupação em situar o leitor sobre sua motivação. Outro aspecto que deixou de ser explorado é de que o prédio não cumpria função social, obrigação prevista pela Constituição Federal.
Embora a rapidez na publicação das reportagens possa sugerir que não houve espaço para o aprofundamento do tema, a escolha das fontes e a própria estruturação dos textos indicam desequilíbrio na apuração jornalística. As abordagens estão longe de superar a superficialidade e a tendência ao entretenimento, que são contrárias à concepção de enquadramento temático, aqui considerado ideal por permitir maior contextualização e pluralidade de vozes na reportagem.